Teologia da Panela
Estes dias o que mais tenho feito
neste sabático tem sido cozinhar. Vejam como Deus nos prepara para as coisas
sem percebermos direito. Antes de tornar este sonho realidade, uma vocação de
cozinheiro e uma atração pela cozinha acabaram tomando conta de mim. No final
do ano que passou (2011), várias vezes fui levado a cozinhar para minhas
mulheres (Odja, Andréa e Alana), meus familiares (Sr. Expedito, D. Nita e meu
pai), amigos e irmãos que por amar e admirar, acabamos querendo agradar e
impressionar o paladar. Não imaginava que Deus estava me preparando para
assumir o papel de chef da família neste tempo sabático.
Hoje à noite, depois de mais um dia
de muito frio (em torno de -6º com algumas variações para mais e para menos) e
pouca gente para ver e falar, exercitamos mais um dia de mergulho em nosso
processo de auto-conhecimento familiar. Pensando bem, depois destes dias em que
estamos confinados em nosso apartamento no Eden Seminary, tenho visto o valor
de passarmos um tempo como família, longe das influências e barulhos externos,
visando desenvolver a escuta, a solidariedade e a sensibilidade tão rara em
nossas casas nos dias atuais. Ficar junto tem seus atropelos e dificuldades,
entretanto, crescemos no conhecimento e reconhecimento das nossas raízes.
Por volta das 21h horário local,
fui para cozinha tentar fazer um prato que conheci a poucos dias em um dos
jantares de despedida em Maceió, oferecido por Áurea, Joyce, Juliana e Ailton
leão. O prato em questão era o cuzcuz marroquino. O bom deste prato é que você
fica livre para criar sua própria receita. Fui para cozinha e comecei a pensar
nos ingredientes. Aqui tem outra questão: quando estamos longe da nossa terra e
da nossa cultura, cozinhar se torna um desafio ainda maior, pois, temos que nos
virar com o que vamos encontrando pela frente. A vida é assim mesmo, nem sempre
da para vivê-la da forma que planejamos. Nestes instantes o que temos que fazer
é buscar os ingredientes disponíveis que a mesma nos oferece e tentar criar
usando a imaginação e a criatividade dadas pelo Espírito Santo.
Fiz todo o processo que li nas
receitas disponíveis da internet com a massa do cuzcuz marroquino e comecei o
preparo dos vegetais que iria misturar no mesmo: pimentão verde, amarelo,
pimenta, tomate, cebola, alface e brócolis. Tudo bem cortadinho no capricho e
colocado para refogar com azeite, sal e manteiga a gosto. Foi exatamente neste
momento de profundo mergulho culinário que observei algo trivial no fundo
daquela panela, que com certeza, você que também gosta de se aventurar na arte
da cozinha já observou: o tomate e a cebola que costumam ficar bastante
volumosos quando cortados, mesmos que sejam bem picadinhos, tinha sumido quando
da primeira fervura junto com os demais
vegetais. Observei que o brócolis, a pimenta vermelha, o alface e os pimentões
permaneceram quase intactos, já a cebola e o tomate tinham se diluído na
panela. Pronto, surgiu aí a ideia deste texto com cheiro e sabor de comida
quentinha. Pensei nas palavras de João Batista quando indagado pelos seus
discípulos acerca de Jesus Cristo, que segundo eles estava arrebanhando mais
discípulos que o próprio João. Ele respondeu: “É necessário que ele cresça e eu
diminua” (João 3:26-30). Lembrei-me também das palavras do apóstolo no segundo
capítulo da carta escrita aos Filipenses, descrevendo a atitude que deve ser
imitada na vida do Senhor Jesus Cristo: “Seja a atitude de vocês a mesma de
Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era
algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo,
tornando-se semelhante aos homens...” (Fp. 2:5-7).
Vejam como podemos ouvir a voz de
Deus e pensar teologia até cozinhando. Vivemos dias de profunda disputa entre
os seres humanos, disputas estas que nos levam as guerras, geram ódio,
preconceito, racismo, acumulo de riqueza, descriminação de toda natureza,
usurpação dos direitos alheios entre as pessoas e as nações. Vemos atualmente
líderes religiosos em nossas igrejas que deveriam falar menos em nome de Deus e
tentar praticar mais as palavras de João Batista e ou tentar imitar o Mestre
como descrito pelo apóstolo no livro de Filipenses; tentando a todo custo
tornar-se a boca exclusiva de Deus em nossa sociedade contemporânea. São
figuras que tem resposta para todas as questões e um julgamento na ponta da
língua para cada fraqueza e pecado da raça humana. O mais engraçado é que o
Mestre dos Mestres, nosso Salvador e Senhor chamado Jesus Cristo de Nazaré
abriu mão desta possibilidade de ser juiz dos homens para amá-los com todas as
suas forças, dando a sua própria vida pelos seres humanos fracos e paradoxais
como eu e você (João 12:47; 3:16; I João 3:16 e Fp. 2: 8-10).
A teologia da panela que proponho é
muito simples: termos a coragem de desaparecer da cena principal, influenciando
o sabor das coisas e da vida sem precisar ser vistos e ou aplaudidos por isto.
Fazer como a cebola e o tomate que somem dos olhos do cozinheiro mais são
sentidos pelo paladar de quem degusta os pratos. Sumir, sair de cena num tempo
em que todos querem ser vistos, nem que sejam como animais enjaulados dentro de
casas com câmeras por todos os lados não é fácil. Deixar o palco principal como
fez o Senhor Jesus, ficando atrás das cortinas, influenciando pelo exemplo e o
poder de palavras que tinha repercussão/força na sua vida e não no seu
marketing pessoal é o desafio da teologia que podemos encontrar numa simples
panela que vai ao fogo com ingredientes de todas as naturezas. “É necessário
que ele cresça e eu diminua” (João 3:30). Creio através da disciplina que este
tempo sabático tem começado a me impor/ensinar que quando conseguirmos imitar
as palavras e o exemplo de João Batista e tivermos coragem de seguir
radicalmente Jesus de Nazaré, o mundo será mais cuidado e amado pela igreja,
que vendo o exemplo da mesma desejará conhecer este Deus amoroso que deu seu
próprio filho na cruz por amor de homens e mulheres como eu e você (João 3:16).
Wellington Santos
Webster Groves, St. Louis,
madrugada do dia 21 de janeiro de 2012
Receita
Preparo
Receita
Ingredientes
1 xícara de cuscuz marroquino
1 tablete de caldo de legumes
1 xíc e meia de água fervente
1/2 berinjela em palitos ou cubos
1/2 cenoura em palitos ou cubos1/2 berinjela em palitos ou cubos
1/2 abobrinha em palitos ou cubos
1/2 cebola picadinha
cheiro verde á gosto
1 colher de sopa de azeite
Sal se achar necessário.
- Numa panela ferva a água com o tablete de legumes, mexa com uma colher para dissolver bem, desligue o fogo e acrescente o cuscuz marroquino para hidratar por 5 minutos.
- Solte o cuscuz com um garfo.
- Numa outra panela faça um refogado com o azeite, cebola , os legumes e o cheiro verde ( não acrescente água no refogado).
- Junte o cuscuz ao refogado e está pronto.Acompanha muito bem peixes.
